quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Como de Súbito na Vida


Como de súbito na vida tudo cansa!
e cansa-nos a vida e nos cansamos dela,
ou ela é quem se cansa de nós mesmos,
na teima de existir e desejar?

Porque, neste cansaço, não o que não tivemos,
ou que perdemos, ou nos foi negado,
o que de que se cansa, mas também
o quanto temos, nos ama, se nos dá
a até os simples gozos de estar vivo.

Um dia é como se uma corda se quebrara,
ou como se acabara de gastar-se,
que nos prendia a tudo e tudo a nós.

Não é que as coisas percam importância,
as pessoas se afastem, se recusem,
ou nós nos recusemos.

Não. é mais
ou menos que isto- se deseja igual
ao como até há pouco desejávamos.

É talvez mais.

Mas sem valor algum.

O dia é noite, a noite é dia, a luz
se apaga ou se derrama sobre as coisas
mas elas deixam de ter forma e cor,
ou se sumir no espaço como forma oculta.

E o que sentimos é pior que quanto
dantes sentíamos nas horas ásperas
da fúria de não ter ou de ter tido.

Porque se sente o não sentir.

Um tédio

Não como o tédio antigo.

Nem vazio.

O não sentir.

Que cansa como nada.

Até dizê-lo cansa.

É inútil.

Cansa.

Jorge de Sena

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