sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A gente vai.


Já que não deu certo, é melhor que fique assim.

A gente se afasta e cada um vai tocando a sua vida.

A gente se afasta e depois de um tempo finge que superou, que não sente mais nada e até arrisca andar de mãos dadas com um novo amor.

A gente se afasta e guarda tudo dentro do peito.

Escondemos o sentimento dentro de um potinho e fazemos de conta que tudo aquilo não existe mais.

E aí a gente vai levando até quando suportar.

Até quando um dos dois não mais aguentar.

A gente vai.

Com a lembrança do verdadeiro amor que escapou por entre os dedos.

Com a certeza de que nunca mais sentiremos nada parecido.

Sentindo o cheiro do perfume e lembrando o toque dos lábios.

A gente vai porque o orgulho não nos permite voltar atrás.

Porque já nos machucamos demais.

A gente vai, mas a felicidade não.

A gente vai. A gente foi.

A saudade fica.

Fica na camisa rasgada e nas brincadeiras dentro do elevador.

Fica nas lembranças daquela viagem e naquele fim de tarde.

Fica no vazio do sofá e do coração.

Fica aqui e fica aí também, mas a gente não precisa admitir.

A saudade é grande, o orgulho é maior ainda.

Está tudo bem.

Neste mundo torto quase ninguém termina ficando com o grande amor da vida mesmo, apesar de todos fingirem que sim.

Quem somos nós para irmos contra?

As coisas são como elas são.

E, de tanto fingir que está tudo bem, quem sabe um dia a gente acabe acreditando.

Muitas vezes é melhor levar uma vida sem grandes riscos.

E aí, por não conseguir domar o tigre, a gente se contenta com o gato.

E agora é conviver com aquele bichinho monótono, cansado e preguiçoso, porque nos faltou coragem de assumir o desafio que seria lidar com algo tão selvagem.

Animais domesticados não precisam de grades. Então é isso.

Agora a gente vai.

Fingindo que está feliz e tentando esquecer o nosso potinho secreto.

O problema é que quando se é feliz de verdade uma vez na vida, você já não mais vai sorrir igual por outra coisa qualquer.

Desculpe por ter aberto nossas lembranças assim sem avisar.

É sempre mais difícil ser um bom ator em noites de chuva.

Dessa vez a saudade venceu.

 Rafael Magalhães

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