quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Você é...


Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava,

você é os nervos à flor da pele no vestibular, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema,

você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai,

você é o que você lembra.

Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora,

você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas,

você é o que você chora.

Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa,

você é o pelo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta,

você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta,

você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo,

você é o que você desnuda.

Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar,

você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá,

você é aquele que rema, que cansado não desiste,

você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta,

você é o que você queima.

Você é aquilo que reivindica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta,

você é os direitos que tem, os deveres que se obriga,

você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca,

você é o que você pleiteia.

Você não é só o que come e o que veste.

Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê.

Você é o que ninguém vê.

 Martha Medeiros

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