domingo, 6 de novembro de 2016

Por qualquer motivo o amor acaba


O amor acaba.

Numa esquina, por exemplo,

num domingo de lua nova,

depois de teatro e silêncio;

acaba em cafés engordurados,

diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar;

de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel

ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas;

na acidez da aurora tropical,

depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio;

e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados,

e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão;

como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado...

em todos os lugares o amor acaba;

a qualquer hora o amor acaba;

por qualquer motivo o amor acaba;

para recomeçar em todos os lugares

e a qualquer minuto o amor acaba.

 Paulo Mendes Campos

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