sábado, 5 de novembro de 2016

Antes que me ame


Antes que me ame eu preciso avisar que não sou boa no traquejo erudito.

Não adianta argumentar, pois tenho a mania de ficar calada e no dia seguinte rezar uma ladainha na maior simplicidade.

Costumo também ter doses generosas de arrependimento, após ter dito o que não devia.

E mesmo assim, se quiser insistir, sou ausente na maioria do tempo.

Não me prendo a formalidades e oscilo para dizer não.

Antes que me ame em definitivo, preciso avisar que sou avessa ao óbvio.

Sou inventiva por natureza, embora minhas experiências são pouco exitosas.

Tudo bem, isso é apenas um detalhe.

Tenho outras coisas a oferecer, menos danosas que a rotina, por isso viajo para lugares desconhecidos e às vezes penso que não sou desse mundo, pois adapto-me facilmente no ilusório e minhas ideias não são factíveis.

Trago conceitos frágeis como cristal e tortos como quadros mal colocados nas paredes cinzas.

Não tenho decisões grandiosas.

O máximo que consigo tomar posse é do lápis e papel para descrever minhas melhores loucuras.

Antes que ame eu preciso te avisar que minhas declarações de amor não passam de palavras soltas, mas faço um cafuné como ninguém.

Preciso do vento e da tempestade para abalar minha acomodação e em dias agitados assim, não engulo afeto.

Declaro, assino e pago pra ver.

Sou normal em dias contados.

Atemporal tão logo avisto o amor.

Teimosa pela saudade do que desejei.

Pão e poesia fazem o meu dia, mas também transito por outras guloseimas, tipo comer esperança, mesmo fragilizada, só para ter o prazer de dizer que sou otimista em relação ao amanhã, mas confesso que não sei bem se haverá chuva grossa ou apenas uma garoa no dia seguinte.

Iludo-me acreditando que haverá sol.

O futuro para mim sempre germinará como meus canteiros de girassóis.

Deixará pelo menos alguns rastros de sua beleza, mesmo com os galhos nus.

Tenho o destino na palma de minha mão, contudo ele é traiçoeiro ou sou míope e enxergo linhas fortes e definitivas nas marcas mal ajambradas da minha pele, outrora viçosa.

Por falar em pele,corpo, não sou feia e nem bonita.

Sou para os olhos desnudos de ilusões.

Orgulho-me do meu visual descompromissado com o tempo.

Agrado ao meu espelho e não dou prejuízos aos detalhes.

Descuido dos fiapos da vaidade e nunca, nunquinha tranco a porta da alma.

Tenho também o coração escancarado para visitantes noturnos.

Logo aviso a quem chegar, se insistir em morar nele sem pagar o prejuízo de enxergar meus silêncios e ocupar meus vazios, sairão no minuto seguinte, endoidecidos pela substancialidade coerente dos meus sentimentos.

Se quiser me amar, precisará saber que não acho boniteza nos sacrifícios.

Amar é liberdade.

Ita Portugal

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