terça-feira, 27 de setembro de 2016

Aquela leitora...


No início parecia uma sessão de autógrafos como outra qualquer.

O evento ia transcorrendo normalmente, até que aconteceu.

Entre uma dedicatória e outra eu a enxerguei.

De repente o lugar todo se encheu de silêncio.

Tentei voltar a me concentrar.

Aos poucos a fila foi andando e ela se aproximou.

Ela segurava o meu livro entre os braços.

Por um instante eu fiquei imaginando qual seria o seu texto favorito.

Como será que ela havia começado a ler os meus devaneios?

Será que era comprometida?

Será que estava tentando esquecer alguém?

Quando chegou a sua vez eu me levantei para cumprimentá-la.

Um único beijo no rosto como fazem na minha cidade.

Ela me puxou para dar o segundo como fazem na cidade dela.

Senti vontade de perguntar qual perfume ela usava.

Torci pra que gostasse do meu.

Ela me entregou o livro e então me concentrei na dedicatória.

Enquanto eu escrevia ela elogiou a minha letra.

Depois disse que era encantada com a forma com que os meus textos descreviam os seus sentimentos.

Pediu pra trocar de lado na hora da foto porque aquele "não era o seu lado bom".

Me agradeceu pelos textos e trocamos um abraço apertado.

Naquele momento eu pensei em pedir o número do seu celular.

Pensei em convidá-la pra jantar após o evento.

Pensei em perguntar se ele tinha outro alguém.

Pensei em escrever um texto só pra ela.

Faltou coragem pra quase tudo, mas a última possibilidade eu estou cumprindo exatamente agora.

Seria uma covardia o escritor se envolver com uma leitora.

Eu prefiro não quebrar o encanto.

Nunca mais a vi.

Não sei se ela percebeu tudo isso acontecendo naquele dia.

Não sei se o sentimento dela poderia ir além da admiração pelo escritor.

Acho que nunca vou saber.

Mas talvez ela esteja por aqui exatamente agora, diluída entre esses milhares de corações que leem este texto.

Talvez perceba que foi pra ela que eu precisava escrever.

Talvez não.

Ei, garota!

Vez ou outra acontece algo em nossas vidas capaz de mudá-la completamente.

O seu sorriso foi uma delas.

Logo eu lançarei um novo livro e provavelmente voltarei em sua cidade.

Vou procurar seus olhos na fila.

Quem sabe até lá eu crie coragem de contar que este texto foi escrito pensando em você.

Rafael Magalhães

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