sábado, 16 de julho de 2016

PAPELÃO


Não havia sacolas plásticas no supermercado dos anos 70 - eram sacos de papel.

Quando o empacotador colocava a verdura molhada no fundo, o pacote arrebentava e todos os produtos rolavam pela calçada.

Vinha aquele desespero para catar a couve atravessando a rua e perseguir as laranjas antes da boca-de-lobo.

O descuido do funcionário na ordem dos mantimentos costumava render pronto-socorro, com a explosão das garrafas de vidro dos refrigerantes no chão.

Não foram poucas as vezes em que vi clientes atrás de suas compras pela ladeira da rua Carazinho, na minha Porto Alegre.

Tanto que uma das principais advertências familiares consistia em segurar o pacote por baixo, jamais por cima.

Cruzava os dedos em uma cinta dos produtos até em casa.

Passo a passo, um garçom equilibrando a sua bandeja de compras ao longo de seis quadras.

Guardo esta máxima quando alguém me pede um conselho.

Vou além do universo consumista.

Ao falar, olhe nos olhos, dê colo às palavras.

Porque, diante da embalagem e aparência frágeis, o conteúdo irá desabar.

Esteja por inteiro, mesmo que seja para discordar e ser desagradável.

A mentira convive fertilmente com a dispersão.

Não trate o outro como paisagem secundária.

Não fique conversando distraído, numa sobreposição aleatória de atividades.

Conversar é se entregar inteiramente para aquela tarefa.

Tampouco não tenha as respostas prontas.

Não murmure sim sem parar.

O interlocutor nem acabou de perguntar e você já está respondendo.

A indisposição gera a maldade.

Apoiar as palavras é não ser prepotente.

Só os prepotentes seguram o pacote pelas abas de cima.

No supermercado da infância ou da linguagem, a verdade nunca foi uma questão de força e de grito, mas de jeito.

Fabrício Carpinejar

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