sábado, 30 de julho de 2016

Meu filho grande


Só pode saber que está morrendo quem tem um filho.

O filho é a régua da existência.
Ele mede o meu fim.
Mede o tamanho de minhas realizações.
Mede o meu salário.
Mede a minha folga.
Mede a minha dispersão.
Mede a minha loucura e a minha sanidade.
Mede a minha vontade de acordar.
Mede a minha felicidade.
Mede a minha paciência com imprevistos.

Podemos até nos enganar sozinhos, só que não tem como disfarçar a fundura do cotidiano diante dos filhos.

O filho é a nossa largura, a nossa dimensão, é quando o mundo nos abraça e também nos esmaga.

O desemprego dói mais sendo pai.
Um desaforo dói mais sendo pai.
A risada é mais estridente sendo pai.
Um elogio é mais desconcertante sendo pai.

Eu me acostumei a me encarar no espelho e desprezo as rugas, os pés-de-galinha, as olheiras.
Não acompanho a minha idade - é como se mantivesse a vitalidade de um jovem por dentro do raciocínio.

O filho me devolve o meu tempo, o tempo findo e vindo da aparência.

Ele quebra as superfícies espelhadas e a fixação dos hábitos.

Não há mais como mentir a minha idade quando observo que ele me ultrapassou na altura, que usa calça 42, que o tênis abandonou o 37, que os meses sãos anos para o adolescente, que não compreende as minas gírias, que as minhas piadas não têm graça, que ele já é adulto e adquiriu uma melancolia no olhar, própria de quem já se frustrou alguma vez comigo.

Pelo filho, descubro que envelheço.
Mas, por ele, não quero morrer.

Fabrício Carpinejar

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