domingo, 26 de junho de 2016

VAMOS RIR DISSO TUDO


Não há frase tranquilizante depois de uma separação.

Os amigos tentando ajudar costumam infeccionar as feridas.

Desejam livrar você do sofrimento o quanto antes e não respeitam o luto demorado e gradual.

Procuram despertar a sua vontade para sair e conhecer novas pessoas enquanto o que anseia é desaparecer e se esconder dentro do passado.

Não costuma funcionar dizer para o dolorido da perda recente que "vai passar!".

É subestimar a importância do pertencimento e da entrega.

"Vai passar" é desprestigiar as pontadas da saudade. O enlutado quer lutar contra o esquecimento e você insiste em apressá-lo a mudar de assunto. Da mesma forma, é nada aconselhável decretar que ele ou ela "encontrará alguém melhor". 

Ninguém acredita na esperança quando acabou de assassinar a fé.

O separado não aceitará a profecia, entenderá como maldição, já que experimenta um asco de amar, um nojo de amar.

Sua reação será de absoluto descrédito, com a intenção irritada de jamais namorar de novo.

Tampouco deboche advertindo que "escapou de uma fria".

O descorneado não tem como julgar coisa alguma, voltaria na primeira oportunidade.

Está se vendo como um enterrado vivo na lápide de um romance - fria é a sua pedra de solidão, fria é a sua cruz bordada com os nós da garganta.

A melhor consolação é "ainda vamos rir disso tudo".

No plural, avisando que permanecerá junto no futuro, que não abandonará a amizade à míngua dos acontecimentos.

É projetar a alegria no tempo de trevas, é antecipar a cumplicidade que surgirá com o amansamento das mágoas.

O riso dói, o riso é cedo, mas prepara a serenidade do rosto.

Graças aos amigos, a tragédia amorosa pode vir a ser a nossa grande piada.

Fabrício Carpinejar

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