segunda-feira, 13 de junho de 2016

Seu tipo preferido de palhaço


Eu tenho medo de palhaços e de escuro desde que era criança.
Me lembro exatamente quando, num carnaval, atravessei a rua correndo e fui atropelado por fugir de uns guris fantasiados de palhaço. Rodas nos pés, nada demais.
Passado o susto, ficou o trauma: palhaços me despertam risos nervosos.

Não sei o que me preocupa mais na atmosfera lúdica de um palhaço de circo, se é a felicidade exagerada, denunciando desespero, ou se é a minha reação em não interpretar a graça, mas a tristeza neles.
Dia desses eu assisti ao Balada Triste de Trompeta, um filme espanhol que conta a história de dois palhaços. Um dos palhaços, um triste e um feliz, exclama que seria assassino se não fosse palhaço.
E daí eu enxergo o ódio, a cicatriz por baixo da maquiagem, o desespero que pede pro outro rir enquanto grita esganiçado alguma piada.

E hoje é engraçado ver que a gente também se torna palhaço em algumas relações ao longo da vida. Quando somos os únicos da roda a não achar graça na piada porque, bem, ela não tem graça.
O que mais me dói, no entanto, é quando eu viro o seu tipo preferido de palhaço.
Quando você ri e gargalha e se diverte sem perceber que eu tô ali amarrado com a corda no pescoço.
Seu tipo de palhaço que entrega o discurso e confessa o quanto quer você, o quanto tem lutado pra manter as coisas, e você ri.
O típico palhaço que não é levado a sério por quem ama.

É divertido pra você, mas pra mim não.
Você não vê, mas cada palavra que diz em tom de desprezo ou escárnio, com a intenção de me ferir no dia a dia, cada uma delas mancha meu rosto.
Borra o olho desenhado, aumentam as bolsas enormes debaixo dos olhos.
Desenrolam os cílios e vão rachando os lábios, abrindo ainda mais os poros.
E eu tento sustentar um sorriso artificial pra não gritar que aqui dentro machuca, que aqui dentro tá implodindo aos poucos com a tua falta de carinho e cuidado.
Enquanto isso, você leva a piada no dia a dia, sem perceber nada.

Meu medo de palhaços talvez continue crescendo por sua causa.
Por causa dessa gente que vê graça em expor, incomodar, implicar, não ligar e não ter a mínima consideração.
Meu bem, a gente já passou da quinta série onde colar chiclete no cabelo era sinal de amor.
Hoje o riso vira humilhação, e pra gente que ama esse riso mata.
Talvez, se você notasse os palhaços e seu olhar triste, se notasse que eles nunca riem enquanto fazem as brincadeiras, entenderia um pouco mais sobre o que sinto.
Porque tenho a certeza de que meu medo de palhaço me ensinou a ser muito cuidadoso com quem sofre calado e não consegue botar pra fora, com quem usa uma maquiagem pesada pra disfarçar as olheiras e o “vou mal, obrigado por perguntar”.

Ouvindo aqui a música da Emeli Sandé, sentindo as palmas do público e as suas, vejo que talvez seja difícil mesmo entender tudo de onde você está.
Sou seu tipo preferido de palhaço e talvez você sinta falta caso eu vá embora.
Porque eu ainda não aprendi a rir da piada e nem sei quanto tempo o meu show vai durar.
Mas com você eu aprendi a ter um pouco mais de compaixão por palhaços, mesmo com medo.
E também sigo com medo do escuro.
Desse escuro que você cisma em me deixar sempre que ri.



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