quarta-feira, 1 de junho de 2016

Saudade é...


Um suspiro.

Não sei do quê.

Sei que foi comprido. E alto.

E cheio de alguma coisa que não é ar.

Juro que tinha ambulância preenchendo a noite.

Um clichê, quando paramos para prestar atenção na cidade. Mas tinha uma ambulância.

Alguns cachorros latindo.

Carros passando na avenida e aquela moto se esguelando como faz todo final de semana.

Até sirene de polícia.

Um grilo! – ou dois – pude ouvir quando cortinei os olhos.

E quando não tive mais com o que distrair a visão, nada além de uma black paisagem, percebi que era a saudade entrando pelo meu nariz.

Eu inspirava saudade.

Um dia, me lembro de doer dele.

Ele longe. Ele longe até quando voltava pra cidade.

Ele escorregando de mim o tempo todo.

A saudade que dá mesmo enquanto ele me encarcerava com palavras.

Voláteis, como nasceram para ser.

Porém não como eu lido com elas.

Engarrafar os dias de uma vida e qualquer pensamento é a desculpa com mais sentido para continuar aqui.

Sentir saudade só do que não é meu.

Saudade que deixa o coração inchado e meio dolorido até.

Saudade é cólica cardíaca.

Você acha que expirar o que é tóxico dela, depois de consentir sua entrada, vai resolver tudo e você pode dormir normalmente à uma da manhã. Não.

Você enruga a cama, suando saudade.

Tá tudo confessado no lençol.

Entregue explicitamente para só eu mesma saber. E guardar.

A saudade é minha.

Não preciso dividir com ninguém.

Preciso lavar esse lençol e voltar pros grilos e as sirenes.

Agora algum carro arrombado pede ajuda.

E vai partir sem um bilhete, uma mensagem no celular.

Mas pode ser só um dono desligado, que não se atenta que portas abertas convidam sempre alguém para entrar.

Daniel Bovolento

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