quinta-feira, 9 de junho de 2016

A gente nunca enterra tudo o que sente


Uma vez a Martha Medeiros escreveu que o fim é como se fosse uma queda de avião em que os sobreviventes “percebem a perda de altitude, a potência enfraquecida das turbinas e o desastre iminente, até que acontece a parada definitiva da aeronave, (…) e sobe do chão um silêncio absoluto, (…) a quietude amortizante de quem não respira, não pensa, não sente nada ainda.”
É bem isso, com a diferença de que você foi mais uma batida de carro do que uma queda de avião.
Teria sido mais poético te retratar como a tal queda, mas pra isso eu teria passado por uma balcão de check-in e preenchido o seu contato de emergência.
Era pra você que eu gostaria que tivessem ligado pra relatar como eu me sinto, como eu queria ter te incomodado com amigos contando que eu tô super bem e que a vida é puro floreio, queria ter mesmo te massacrado com a minha felicidade-tão-incrível-que-é-quase-inacreditável.
Pelo menos teria sido bonito.
Mas não. Foi colisão de frente, eu indo e você recuando.
Acelerei e matei a gente, minto, matei dentro de mim, porque você saiu ileso.

Você me fez um jantar e nunca me beijou.
Comprou meu livro preferido e nunca me beijou.
Sentou na minha frente à meia noite de uma quarta qualquer em plena Paulista e nunca me beijou.
Disse que não podia e que tava indo, se despediu de mim no último momento e nunca me beijou.
Nunca me deu um mísero momento de concretização, nem uma migalha, nada, nadica.
Não sei se era a intenção me fazer pensar que foi tudo platônico, não sei se foi a intenção revirar tudo aqui dentro de novo quando você voltou do nada e me chamou pra jantar.
Não sei, nunca soube. E já passou da hora de perguntar.

Achei que depois do fim eu esqueceria.
Pra você foi acidente de percurso, pra mim é que foi rota planejada.
O GPS falhou, a gente colidiu e acabou cada um indo prum lado.
Um dos lados tem sempre que sair mais ferido, já percebeu? Fui eu.
Um tiro de canhão numa guerra sentimental que eu não queria ter lutado.
Você levantou a bandeira branca e abandonou a luta, eu fiquei no campo de batalha, a morte do amor.

Achei que não iria sentir nada ontem à noite.
Até ouvir você mencionar outro nome, casualmente, como se fosse parte da sua vida.
Quando foi que ele entrou e eu não percebi?
Não me interessa, nunca me interessou, segundo você.
Esse amor todo só vive aqui e eu desenvolvo no papel, no café forte de noite, na azia que eu sinto quando você liga.
E você nem me beijou, nunca.

A gente nunca enterra tudo o que sente, muito menos a pessoa por quem a gente sente.
Mas uma hora chega o enterro, uma hora chega o velório, uma hora a gente sai de lá sem uma parte da gente – que vai faltar pra sempre.
Porque cada amor que a gente tem na vida deixa um pouco e leva um pouco.
Amores serão sempre amáveis, mesmo que a gente os esqueça em gavetas ou covas, mesmo que a gente se despeça uma ou cinquenta vezes.
Alguns deles, os mais dolorosos, nunca param de doer, só se tornam um pouco mais suportáveis.



Daniel Bovolento

Um comentário:

  1. Texto maravilhoso!!! Saudades de você amiga....

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