segunda-feira, 2 de maio de 2016

Quando a gente volta para casa


Independente do que a gente possa ter vivido no dia, é quando a gente volta para casa que a gente pensa melhor.
É um tempo nosso.
Um tempo para ver se a ficha cai, independente do que a gente possa ter vivido.
Nos dias ruins, a volta para casa parece demorar ainda mais.
Os semáforos insistem em avermelhar feito o sangue que escorre do nosso coração machucado.
Nos dias bons, por sua vez, nada é problema e tudo a gente pode esperar.
Tudo bem se o semáforo avermelhar, tudo bem até se o ônibus quebrar.
Tudo se torna ainda mais histórias para contar quando a gente chega em casa.

A volta para casa é um ritual que todos passamos.
Pode você morar na cobertura do bairro nobre voltando dentro do seu carro 2.0 que esmaga o asfalto; pode você morar no puxadinho de alvenaria alugado lá na periferia, voltando esmagado no ônibus, metrô, trem e uma caminhada.
Todo mundo volta para casa no fim do dia.

Tem muita gente que tem medo de si mesmo.
São pessoas que não gostam das suas próprias companhias.
Fogem de almoços desacompanhados e de qualquer outra atividade a ser feita sem ninguém.
Elas só não podem fugir, porém, das voltas para a casa.
Ainda que um dia e outro tenham companhia, haverá aquele dia em que ninguém estará ao lado para conversar.
E isso não é problema, porque já concordamos com a verdade de que, por melhor que seja a companhia de alguém para você, você sempre será a sua melhor companhia.

Nas voltas para a casa, em geral, a gente coloca uma música.
E aí a gente se vê no reflexo do vidro do metrô com os nomes das estações passando mais rápido que os olhos podem acompanhar; a gente se vê na janela do ônibus refletindo os braços esticados de tão apertado.

Quando a gente volta pra casa a gente pensa se manda a mensagem ou não, a gente também começa a ler as recebidas.
Quando a volta pra casa é feliz, a gente até esquece que estamos com outras pessoas por perto e cantamos os refrões que beijam nossos ouvidos.
Quando a volta é triste, porém, a gente quer se esconder, fugir e não ver ninguém.
Quando a volta pra casa é triste a gente não quer que conhecidos nos encontrem perdidos.

Se o destino não intervir, você sempre vai voltar para casa.
Nas segundas, sextas ou sábados de manhã.
Você vai voltar.
Seja morando com os pais ou sem ninguém.
Se não for do tipo que se distrai lendo ou ouvindo música, use alguma dessas voltas para pensar na sua vida, nos seus planos e no seu passado recente.
Reflita como foi seu dia e onde que poderia ter sido melhor.
Comemore o segundo feliz, aquele #1minuto1sorriso que viveu.
Uma das maiores grandezas é reconhecer quando somos pequenos.
Presta atenção na sua volta para casa.
Coloca uma música que te faça relaxar, nem feliz nem triste, só relaxar.

Já voltei pra casa sorrindo sozinho que não lembrava que as pessoas me viam no metrô.
Já voltei pra casa chorando ao volante cortando a Avenida Paulista da mesma maneira que meu peito foi cortado naquela noite.
Já dei voltas no Shopping só pra cabeça esfriar antes de ter que voltar.
E mesmo quando eu não tinha muito o que fazer para demorar a voltar, eu chegava em casa e me escondia de mim.
Me calava e me deixava transbordar tudo aquilo que me fez chegar àquele ponto.
Só que hoje eu volto pra casa agradecendo por voltar, feliz por ter saído e certo de que vou sair todos os dias determinado em escrever alguma página nova da minha vida.
Não é só viver mais um dia, é viver uma vida inteira em um dia.

Boa volta pra casa para você que está lendo e voltando, para vocês outros, boa próxima volta para casa. Esqueça da vida mas não esqueça de você e, se caso se esquecer, na volta pra casa você vai lembrar.
É preciso se apaixonar pela própria solidão para saber lidar com os motivos tristes nas voltas para casa.

Márcio Rodrigues.

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