sexta-feira, 20 de maio de 2016

Paisagem



Anil 

O voo,

quase vertical,

da jaçanã fugida

levantou meu olhar,

no dorso esbelto,

de zinco polido,

à calota do céu,

liso, congelado em calmaria,

e quase sólido,

em cobalto líquido.

Pensei que a ave fosse frechar,

de cheio, para pescar peixinhos escamados de ouro:

as estrelas que mergulharam de madrugada…

E que a água longe se abrisse nos nove círculos concêntricos das nove beatitudes…

 Mas o pássaro foi breve um grânulo dissolvido,

entre nuvens fugindo como flocos de espuma,

com a paisagem a luzir,

no seio de uma bolha,

o sol a se desmanchar,

como um sabão redondo,

e o céu todo água,

num côncavo de bacia onde lavam o dia…


                                                                       (João Guimarães Rosa)

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