quinta-feira, 21 de abril de 2016

Minha alma é uma orquestra oculta...


Minha alma é uma orquestra oculta;

não sei que instrumentos tange e range,

cordas e harpas, tímbales

e tambores, dentro de mim.

Só me conheço como sinfonia.

Todo o esforço é um crime

porque todo o gesto é um sonho inerte.

As tuas mãos são rolas presas.

Os teus lábios são rolas mudas.

(que aos meus olhos vêm arrulhar)

Todos os teus gestos são aves.

És andorinha no abaixares-te,

condor no olhares-me,

águia nos teus êxtases de orgulhosa indiferente.

E toda ranger de asas, como dos (...),

a lagoa de eu te ver.

Tu és toda alada, toda (...)

Chove, chove, chove...

Chove constantemente, gemedoramente (...)

Meu corpo treme-me a alma de frio...

Não um frio que há no espaço,

mas um frio que há em vir a chuva...

Todo o prazer é um vício,

porque buscar o prazer é

o que todos fazem na vida,

e o único vício negro é

fazer o que toda a gente faz.


Fernando Pessoa

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