terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Vem serenidade, para perto de mim


[...]

Vem serenidade,
e faz que não fiquemos doentes,
só de ver que a beleza
não nasce dia a dia na terra.
Reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre
de vermos a nossa idade exata.

Dá asas ao peso da melancolia,
e põe ordem no caos
e carne nos espectros,
ensina aos suicidas a volúpia do baile,
enfeitiça os corpos
quando eles se apertarem,
e não apagues nunca
o fogo que os consome.

Serenidade,
assiste à multiplicação original do mundo:
um manto terníssimo de espuma,
um ninho de corais,
de limos,
de cabelos,
um universo de algas
despidas e retráteis,
um polvo de ternura deliciosa e fresca.

Vem,
com teu frio esquecimento,
com a tua alucinante e alucinada mão,
põe, no religioso ofício da vida,
a alegria, a fé,
os milagres, a luz!

Vem,
e defende-me da traição dos encontros,
do engano na presença daquele
cuja palavra é silêncio,
cujo corpo é de ar,
cujo amor é demais absoluto
e eterno para ser meu,
que o amo.

Para sempre irreal,
para sempre obscena,
para sempre inocente
Serenidade, és minha.

Raul de Carvalho

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