quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

"...Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais. Uma vez que nem sei se tu existes."


Abraça-me.

Quero ouvir o vento que vem da tua pele,

e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.

Quando me perfumo assim,

em ti, nada existe

a não ser este relâmpago feliz,

esta maçã azul que foi colhida

na palidez de todos os caminhos,

e que ambos mordemos para

provar o sabor que tem

a carne incandescente das estrelas.

Abraça-me.

Veste o meu corpo de ti,

para que em ti eu possa buscar

o sentido dos sentidos,

o sentido da vida.

Procura-me com os teus antigos braços de criança,

para desamarrar em mim a eternidade,

essa soma formidável de todos os momentos livres

que a um e a outro pertenceram.

Abraça-me.

Quero morrer de ti em mim,

espantado de amor.

Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,

para que possa levá-la comigo

e oferecê-la aos astros pequeninos.

Só essa água fará reconhecer o mais profundo,

o mais intenso amor do universo,

e eu quero que dela fique, a saber,

até as estrelas mais antigas e brilhantes.

Abraça-me.

Uma vez só.

Uma vez mais.

Uma vez que nem sei se tu existes.

Joaquim Pessoa

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