sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

ABRA MÃO DO ROMANTISMO VELADO DE MACHISMO


Acordei disposta a te mandar uma real, gata.

Sabe essas coisas que a gente fala para a irmã mais nova, assim, na lata mesmo?
Ou para aquela amiga que tá lá na maior deprê?
Vou te dizer agorinha.
Porque sim, você precisa e, bem provável, que muita gente também.
E não, esse conselho não é daqueles que só dou, mas não uso.
Esse aqui, minha filha, não tem jeito, eu uso e abuso e ainda acho que todas deveriam usar.

Porque, quer saber?

Nós não devemos buscar romantismo. Isso mesmo.
Não devemos querer romance enquanto nossos direitos não estiverem bem alinhados, bem recordados e descritos, assim, claramente mesmo.
Na lata, como tô fazendo agora.

Tá boiando ainda? Bora lá.

Uma amiga minha, ainda essa semana, acreditem, me disse que ela quer largar o boy de sei lá quantos anos de relacionamento, por ele simplesmente não estar lhe dando mais atenção.

Questiono: atenção seria o quê?

Obtenho como resposta: coisas de casais, como agrados e tal.

Penso: oi?

Não achou nada de muita importância/espanto aí? Vou explicar.

Enquanto ele a faz mudar de roupa para sair, ela tá lá jururu querendo um buquê de flores.
Enquanto ele lhe diz que não quer que ela trabalhe, ela tá lá querendo ganhar um urso de presente de natal.
Enquanto ele lhe diz que esmalte vermelho é pra mulher de baixo nível (seja lá o que isso queira dizer na cabeça dele), ela tá lá sonhando com uma caixa de bombons.

Oi? Gente, como assim?

Não tem como ouvir esse tipo de coisa e ficar quieta, tem?
Por isso vim aqui, te dizer, honestamente, que, por favor, seja inteligente o bastante para perceber quando a coisa tá ficando séria demais e que de respeito nada tem.
Que você ame a si mesma quando o cara vier te dizer como se vestir te servindo um café da manhã na cama pra te fazer mudar de ideia. Poupem-se!

Antes de preferir romantismo (se romantismo pra você for isso), prefira ser respeitada como mulher, como humana, como cidadã.

Busque, queira, deseje, meu bem, ser livre de ordens machistas como estas, queira ser digna o bastante consigo e deixar de se calar em momentos que o desrespeito baixar.
Não prefira agradinhos – forjados em carinhos – que tentem lhe calar, expresse, diga, fale, grite.
Não queira rosas, quando são os espinhos que lhe cortam.
Queira despencar aquele buquê inundado de regras a serem cumpridas, não faça de si mesma uma colagem do gosto de outros.
Antes de preferir romance, prefira seus direitos, sua forma de ser quem é, sem que alguém lhe aponte o dedo e diga que assim não dá.

Quer saber o que não dá?

Não dá é pra deixar que isso continue e que suas maiores certezas sejam a de querer um jantarzinho em um lugar bacana, enquanto, depois, você terá que abaixar a cabeça.

Não! Não dá pra tolerar intolerâncias desse tipo.

Nós, mulheres, não somos mercadorias para sermos compradas, nem com muito, nem com pouco. Não aceite.
Não abra mão das suas vontades por vontades que não são suas e que, ainda por cima, tentam te subornar ou coisa do tipo.
E seja inteligente o bastante em não aceitar romance quando o que realmente querem e tentam fazer é te podar.
Não permita que lhe prendam as asas, quando o mais belo é voar.
Desprenda a barra da saia de prisões como essa.
Você não pode aceitar flores, quando, no resto do tempo, subornam suas sementes.

Antes, minha cara, de querer um presentinho fora de hora, queira que seu acompanhante te dê o respeito que merece, que não se intrometa nas suas variadas formas de se vestir, que o esmalte da sua unha seja do seu gosto, sem se importar com o dele.

Que a sua saia tenha o tamanho da sua vontade.
Que você tenha o direito de ir e vir, trabalhar e estar com quem quiser.
Conversar, se divertir.
Ser gente. Ser livre.

Prefira um “você é linda do jeito que é” do que um “tenho uma surpresinha pra você”.

Porque surpresas acabam, agradinhos também, mas o que você é de verdade ainda estará aí dentro de você pulsando, querendo liberdade, gritando e implorando por socorro.

Por favor, se socorra.

Sâmela Faria

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